{"id":11942,"date":"2014-04-07T00:00:00","date_gmt":"2006-11-06T00:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/intervius.com\/index.html\/?p=11942"},"modified":"2006-11-06T00:00:00","modified_gmt":"2006-11-06T00:00:00","slug":"Laurentino_Gomes11942","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/intervius.com\/index.html\/Laurentino_Gomes11942\/","title":{"rendered":"Laurentino Gomes"},"content":{"rendered":"<p>Pregunta.- Ol\u00e1 Laurentino. Percebo nos seus livros que voc\u00ea faz uma redu\u00e7\u00e3o para n\u00f3s, o grande p\u00fablico, compreender as nuances da hist\u00f3ria. At\u00e9 que ponto esse reducionismo prejudica na sua pesquisa, no sentido de voc\u00ea n\u00e3o expor tudo o que pesquisa ou n\u00e3o entra t\u00e3o a fundo na discuss\u00e3o pol\u00edtica?<\/p>\n<p>Respuesta.- Bom dia, Erick. Acredito que cada livro tem (ou deveria) o seu prop\u00f3sito bem definido. Minhas obras n\u00e3o pretendem esgotar nem aprofundar demais os temas, mas apenas contribuir para ampliar o interesse do p\u00fablico pela Hist\u00f3ria do Brasil. Poder\u00edamos chamar isso de &#8220;divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica&#8221;. Uso a t\u00e9cnica jornal\u00edstica para chamar e reter a aten\u00e7\u00e3o dos leitores (por exemplo, com subt\u00edtulos provocativos de capa). Uma vez capturada a aten\u00e7\u00e3o do leitor, n\u00e3o posso ficar s\u00f3 na superf\u00edcie. Tenho de dar um mergulho mais profundo, mas n\u00e3o t\u00e3o profundo que afaste o leitor mais leigo. Portanto, trata-se de uma linha t\u00eanue e at\u00e9 perigosa. Meu objetivo \u00e9 ser um abridor de portas. Gostaria que as pessoas come\u00e7assem a se interessar pela Hist\u00f3ria do Brasil lendo os meus livros-reportagem e adquirissem tal gosto pelo tema que, depois se aventurassem a ler obras mais densas e profundas, como Ra\u00edzes do Brasil, de S\u00e9rgio Buarque de Holanda (para citar um exemplo). <\/p>\n<p>P.- Ol\u00e1 Laurentino. Voc\u00ea esteve em minha cidade, Ara\u00e7atuba, no dia 04 deste m\u00eas e confesso que foi um presente assistir \u00e0 sua palestra. Tristemente eu ainda n\u00e3o li seus livros, mas j\u00e1 corri para adquirir as tr\u00eas edi\u00e7\u00f5es. Sou jornalista, mas n\u00e3o estou atuando profissionalmente em minha \u00e1rea. Minha pergunta \u00e9: com rela\u00e7\u00e3o a constru\u00e7\u00e3o do nosso estado e a evolu\u00e7\u00e3o da sociedade brasileira, o que representa para voc\u00ea o aumento de jovens na busca por concursos p\u00fablicos?<\/p>\n<p>R.- Joaquim Nabuco em uma de suas obras magistrais se refere ao Brasil como um gigantesco para\u00edso de funcion\u00e1rios p\u00fablicos. Segundo ele, no S\u00e9culo 19, a for\u00e7a e a presen\u00e7a do Estado em todos os setores da economia e da sociedade brasileira eram t\u00e3o avassaladoras que todo mundo queria ser funcion\u00e1rio p\u00fablico. Era a \u00fanica via aberta ao crescimento e ao sucesso profissional em um pa\u00eds avesso ao trabalho (heran\u00e7a da escravid\u00e3o) e ao risco associado \u00e0 inova\u00e7\u00e3o e \u00e0 livre iniciativa. Pois bem, esse cen\u00e1rio n\u00e3o mudou muito. Outro dia vi numa reportagem de TV que 13 milh\u00f5es de jovens brasileiros est\u00e3o se candidatando neste ano a cerca de 50.000 vagas no servi\u00e7o p\u00fablico. O Estado brasileiro continua enorme e desproporcional aos recursos do pa\u00eds. Este \u00e9 tamb\u00e9m um pa\u00eds que n\u00e3o estimula a pesquisa, o risco e a inova\u00e7\u00e3o. A \u00fanica garantia realmente certa para os jovens \u00e9 a estabilidade assegurada pelo servi\u00e7o p\u00fablico. Nesse ambiente, continuaremos a ter uma burocracia enorme, complexa e poderosa. Mas a possibilidade de aparecer um Steve Jobs capaz de inventar iPhones e iPads \u00e9 m\u00ednima&#8230;<\/p>\n<p>P.- Muitos brasileiros, sobretudo catarinenses, discordam do nome Florian\u00f3polis dado \u00e0 antiga Desterro, capital de Santa Catarina, em homenagem ao Marechal Floriano. Que opini\u00e3o tem o historiador Laurentino Gomes a respeito?<\/p>\n<p>R.- Essa \u00e9 uma heran\u00e7a terr\u00edvel dos anos que se seguiram \u00e0 Proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica. Um mito muito recorrente na hist\u00f3ria brasileira \u00e9 o de que somos um povo pac\u00edfico, que n\u00e3o se rebela contra qualquer mudan\u00e7a e que aceita as transforma\u00e7\u00f5es pol\u00edticas como fato consumado. Por essa vis\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 guerra nem sangue na hist\u00f3ria brasileira. \u00c9 um mito sem fundamento, como mostra a hist\u00f3ria da Proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica. O sangue que deixou de correr no dia 15 de novembro de 1889 jorrou em profus\u00e3o nos dez anos seguintes em Canudos, na Revolta da Armada e na Revolu\u00e7\u00e3o Federalista. Foram mais de 30.000 mortos. Em Santa Catarina houve o terr\u00edvel massacre de quase duas dezenas de revolucion\u00e1rios em uma fortaleza da capital, ent\u00e3o chamada de Vila de Nossa Senhora do Desterro, a mando de Floriano Peixoto, o Marechal de Ferro. Como se isso n\u00e3o bastasse, uma vez &#8220;consolidada&#8221; a Rep\u00fablica, a cidade foi rebatizada em homenagem a Floriano, como Florian\u00f3polis. \u00c9 uma heran\u00e7a com a qual boa parte da popula\u00e7\u00e3o convive mal ainda hoje.<\/p>\n<p>P.- Por que existe uma cultura de viol\u00eancia? Qual \u00e9 a sua origem? Quantas gera\u00e7\u00f5es levar\u00e3o para mudar essa cultura?<\/p>\n<p>R.- Acredito que a viol\u00eancia tem tr\u00eas importantes ra\u00edzes hist\u00f3ricas. A primeira \u00e9 a not\u00f3ria desigualdade social, heran\u00e7a ainda da escravid\u00e3o, que fecha as portas para a imensa maioria da popula\u00e7\u00e3o. O crime organizado \u00e9 sedu\u00e7\u00e3o ineg\u00e1vel para muitos jovens sem oportunidade de emprego. Mas seria um erro atribuir a criminalidade s\u00f3 \u00e0 pobreza (caso contr\u00e1rio n\u00e3o haveria ricos criminosos). Um segundo fato \u00e9 a tamb\u00e9m not\u00f3ria fragilidade das nossas institui\u00e7\u00f5es incapazes de enfrentar de forma adequada o crescimento e a sofistica\u00e7\u00e3o do crime organizado. Trata-se de um c\u00e1lculo de risco. No Brasil a pol\u00edcia \u00e9 t\u00e3o ineficiente e corrupta, e a justi\u00e7a t\u00e3o lenta, que, do ponto de vista dos criminosos, o risco de ser bandido compensa. Por fim, h\u00e1 o atabalhoado processo de urbaniza\u00e7\u00e3o recente do pa\u00eds, que criou as imensas franjas de pobreza e abandono na periferia das grandes cidades. At\u00e9 um s\u00e9culo atr\u00e1s, este era um pa\u00eds predominantemente rural. A vida no campo era relativamente est\u00e1vel e organizada, com la\u00e7os familiares e comunit\u00e1rios que que, de certa forma, inibiam a criminalidade. Hoje, a paisagem urbana brasileira \u00e9 dominada por favelas e bairros pobres nas grandes metr\u00f3poles, nos quais os ve\u00edculos sociais se quebraram e a a\u00e7\u00e3o do Estado \u00e9 limitada. Tudo isso \u00e9 um vetor da viol\u00eancia.<\/p>\n<p>P.- A repress\u00e3o que se seguiu ao golpe foi homog\u00eanea desde abril de 1964 ou o movimento teve varia\u00e7\u00f5es de acordo com os estados?<\/p>\n<p>R.- O regime militar de 64 teve fases bem distintas no que diz respeito \u00e0 repress\u00e3o. Em uma primeira etapa, a repress\u00e3o se deu nas institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas. Deputados, senadores e pol\u00edticos opositores ao novo regime tiveram seus mandatos e seus direitos pol\u00edticos cassados. Havia, at\u00e9 a morte de Castello Branco, a ideia de restabelecer a democracia pela convoca\u00e7\u00e3o de elei\u00e7\u00f5es presidenciais. Ou seja, o regime teria um car\u00e1ter provis\u00f3rio, com o objetivo de fazer uma &#8220;r\u00e1pida limpeza&#8221; no quadro pol\u00edtico, segundo o ponto de vista dos militares. Tudo isso mudou no segundo governo militar, de Costa e Silva, no qual se observa um clima de radicaliza\u00e7\u00e3o tanto dos militares quanto dos grupos de esquerda que combatiam o regime. O resultado foi o AI-5 em 1968 e a repress\u00e3o em massa aos opositores, o que incluiu a pris\u00e3o, ex\u00edlio, tortura e morte de muitos dissidentes. Alguns historiadores militares como &#8220;uma revolu\u00e7\u00e3o dentro da revolu\u00e7\u00e3o&#8221;. <\/p>\n<p>P.- Voc\u00ea acha que seria fact\u00edvel um dia o Brasil voltar \u00e0 Monarquia?<\/p>\n<p>R.- Acho pouco prov\u00e1vel. O Brasil fez um plebiscito em 1993 em que a maioria dos eleitores escolheu, nas urnas, a rep\u00fablica como regime de governo. \u00c9 uma decis\u00e3o important\u00edssima porque, ao contr\u00e1rio de 1889, n\u00e3o se tratou mais de um general sobre um cavalo depondo a monarquia. Foi o povo tomando a decis\u00e3o de forma democr\u00e1tica. Nosso desafio hoje \u00e9 assumir a rep\u00fablica que escolhemos em 1993. Percebo ainda uma certa nostalgia mon\u00e1rquica no comportamento das pessoas. O brasileiro n\u00e3o participa da atividade pol\u00edtica. N\u00e3o participa de sindicatos, de partidos, de reuni\u00f5es de pais nas escolas, e nem das assembleia de condom\u00ednio do pr\u00e9dio em que vive. Mas cobra e espera muito do Estado, que deve ser um provedor de todo o bem-estar social, incluindo empregos, seguran\u00e7a, educa\u00e7\u00e3o e sa\u00fade. Essa \u00e9 uma perspectiva mon\u00e1rquica do poder. \u00c9 o imperador, pai de todos, que vai nos prover de todas as nossas necessidades sem que n\u00f3s precisemos &#8211; ou queiramos &#8211; participar das decis\u00f5es. Portanto, para assumir a rep\u00fablica que escolhemos em 1993, \u00e9 preciso assumir que n\u00f3s somos os agentes de transforma\u00e7\u00e3o e que o instrumento dispon\u00edvel para isso \u00e9 o voto. Sem essa mudan\u00e7a de natureza cultural tanto faz que o Brasil seja uma monarquia ou uma rep\u00fablica. Os problemas continuar\u00e3o do mesmo tamanho.<\/p>\n<p>P.- Ol\u00e1 Laurentino, at\u00e9 quando permanecem vivas as cicatrizes de uma ditadura? Na Espanha, o franquismo, com mais de um milh\u00e3o de mortos, acabou h\u00e1 quase 40 anos e o pa\u00eds ainda continua tristemente dividido. Um abra\u00e7o. <\/p>\n<p>R.- As feridas ainda est\u00e3o abertas, mas vejo uma certa relut\u00e2ncia da sociedade e das institui\u00e7\u00f5es brasileiras em cicatriz\u00e1-las. Existem in\u00fameras &#8220;comiss\u00f5es da verdade&#8221; em funcionamento no pa\u00eds, mas o seu poder de investiga\u00e7\u00e3o \u00e9 bastante limitado. Vejo tamb\u00e9m uma certa relut\u00e2ncia por parte dos militares em participar desse esfor\u00e7o de &#8220;passar a hist\u00f3ria a limpo&#8221;. Boa parte dos militares continua a se comportar como avalistas incondicionais do regime militar de 64, como se isso significasse tamb\u00e9m esconder a tortura, as mortes e os atentados cometidos no per\u00edodo. Acho que essas feridas s\u00f3 ser\u00e3o cicatrizadas quanto houver, por parte de todos os envolvidos, esp\u00edrito aberto de coopera\u00e7\u00e3o e desprendimento, capaz de entender que dificilmente conseguiremos seguir adiante na nossa hist\u00f3ria, de forma saud\u00e1vel, sem nos colocar de acordo a respeito desse passado<\/p>\n<p>P.- Como conseguir um espa\u00e7o nesse mercado cada vez mais digital? Novos escritores ter\u00e3o a possibilidade de verem seus livros publicados, ou ter\u00e3o de primeiro conhecer o mercado digital e, tendo \u00eaxito, conhecer\u00e3o o impresso?<\/p>\n<p>R.- Uma not\u00edcia publicada recentemente revela que no Reino Unido a venda de e-books, os chamado livros digitais, cresceu 300% em apenas um ano no mercado brit\u00e2nico. Nos Estados Unidos, j\u00e1 representam cerca de um quarto da venda total de livros. Isso n\u00e3o significa que os livros estejam condenados \u00e0 morte. O futuro do livro e o futuro do papel s\u00e3o coisas diferentes. O formato papel parece estar mesmo com seus dias contados, mas o conte\u00fado dos livros continuar\u00e1 a ser t\u00e3o relevante quanto sempre foi. A boa literatura depende, portanto, menos do formato do que do talento do escritor ou da sua capacidade de pesquisa e surpreender o leitor. \u00c9 nisso que n\u00f3s, escritores, devemos nos focar. As mudan\u00e7as de formato sempre foram e ser\u00e3o inevit\u00e1veis. As novas tecnologias representam amea\u00e7as para os modelos tradicionais de distribui\u00e7\u00e3o de conte\u00fado, mas tamb\u00e9m trazem oportunidades enormes para quem estiver disposto a aproveit\u00e1-las. A n\u00f3s, escritores, cabe continuar a fazer o nosso trabalho com seriedade e talento, procurando seduzir a aten\u00e7\u00e3o dos nossos leitores da melhor forma poss\u00edvel, sem nos preocuparmos excessivamente com o futuro e com as novas tecnologias.<\/p>\n<p>P.- Bom dia. O senhor vai escrever um livro sobre o per\u00edodo da ditadura militar no Brasil? Qual livro o senhor acha que melhor descreveu o que realmente aconteceu neste per\u00edodo?<\/p>\n<p>R.- O livro 1889 \u00e9 o encerramento de uma trilogia e marca o fim de um ciclo na minha carreira como escritor. Tenho v\u00e1rios projetos, mas nenhum definido at\u00e9 agora. Gostaria de escrever um livro sobre a Guerra do Paraguai, outro sobre a Inconfid\u00eancia Mineira, talvez mais um sobre as grandes rebeli\u00f5es do per\u00edodo da Reg\u00eancia, entre a Abdica\u00e7\u00e3o de Dom Pedro I, em 1831, e a maioridade de D. Pedro II. Essa \u00e9 uma d\u00e9cada fascinante, que muitas ideias e projetos de Brasil foram testados, \u00e0s vezes a custa de muito sangue e sofrimento. De certeza, por enquanto, s\u00f3 sei que 1889 ser\u00e1 o \u00faltimo livro com data e n\u00fameros na capa. Os pr\u00f3ximos livros ter\u00e3o t\u00edtulos diferentes. Espero que continuem a fazer sucesso entre os leitores. Quanto a 1964, provavelmente eu n\u00e3o escreva sobre o tema. Pelo menos por enquanto. At\u00e9 porque j\u00e1 existem livros melhores do que eu poderia escrever. Um exemplo \u00e9 a obra magistral do jornalista \u00c9lio Gaspari, quatro livros que, no meu ponto de vista, praticamente esgotam o tema (por enquanto). Foram todos publicados pela Companhia das Letras, com os t\u00edtulos &#8220;A ditadura envergonhada&#8221;, &#8220;A ditadura escancarada&#8221;, &#8220;A ditadura encurralada&#8221; e a &#8220;Ditadura derrotada&#8221;. Recomendo a leitura de todos os quatro.<\/p>\n<p>P.- Ol\u00e1 Laurentino. Na sua trilogia, por diversos momentos, voc\u00ea cita e sublima diversos her\u00f3is. Considerando seus contempor\u00e2neos, h\u00e1 atualmente em forma\u00e7\u00e3o mais alguns desses her\u00f3is que voc\u00ea encontrou na hist\u00f3ria brasileira?<\/p>\n<p>R.- Her\u00f3is t\u00eam, pela sua pr\u00f3pria natureza, uma dimens\u00e3o mitol\u00f3gica. Mais do que personagens em carne e osso, eles refletem valores, necessidades e aspira\u00e7\u00f5es das sociedade em que viveram &#8211; ou, mais frequentemente, das gera\u00e7\u00f5es que vieram depois deles e olham para eles em busca de inspira\u00e7\u00e3o. Portanto, \u00e9 dif\u00edcil identificar her\u00f3is no momento atual brasileiro porque todos, sem exce\u00e7\u00e3o, ainda est\u00e3o desvestidos de tua dimens\u00e3o mitol\u00f3gica, coisa que s\u00f3 o futuro trar\u00e1. Al\u00e9m disso, todos ainda est\u00e3o envolvidos na arena das disputas pol\u00edticas moment\u00e2neas, o que dificulta discernir o julgamento que a hist\u00f3ria far\u00e1 deles mais tarde. Mas obviamente h\u00e1 personagens important\u00edssimos no Brasil atual. \u00c9 o caso de dois advers\u00e1rios: Fernando Henrique Cardoso e Luis In\u00e1cio Lula da Silva. Hoje parecem sintetizar for\u00e7as contr\u00e1rias e irreconcili\u00e1veis. No futuro, a historia provavelmente mostrar\u00e1 que s\u00e3o (ou eram) mais parecidos um com o outro do que \u00e9 poss\u00edvel ver hoje. Um foi o primeiro soci\u00f3logo a chegar a presid\u00eancia da rep\u00fablica. Domou a infla\u00e7\u00e3o end\u00eamica e se preocupou com coisas at\u00e9 ent\u00e3o sem import\u00e2ncia aparente no Brasil, como austeridade monet\u00e1ria e fiscal. O outro foi o primeiro l\u00edder metal\u00fargico, retirante nordestino, com escassa escolaridade, a chegar \u00e0 presid\u00eancia. Fez como sucessora a primeira mulher a tamb\u00e9m chegar \u00e0 presid\u00eancia. Quase imposs\u00edvel n\u00e3o olhar esses dois personagens com admira\u00e7\u00e3o no futuro.<\/p>\n<p>P.- Laurentino, voc\u00ea j\u00e1 sofreu algum preconceito dos historiadores por ser um jornalista escrevendo sobre a Hist\u00f3ria?<\/p>\n<p>R.- J\u00e1 enfrentei cr\u00edticas e at\u00e9 certo preconceito em rela\u00e7\u00e3o ao meu trabalho por parte de alguns historiadores. Mas eu diria que isso j\u00e1 foi pior e que n\u00e3o envolve a imensa maioria das historiadores que, ao contr\u00e1rio, tem sido at\u00e9 muito generosos comigo. Acredito que a principal diferen\u00e7a entre o meu trabalho e o dos historiadores acad\u00eamicos seja de foco e de p\u00fablico. Um historiador, quando escreve um determinado texto, geralmente tem como alvo final do trabalho os seus pr\u00f3prios pares. Podem ser colegas encarregados de avaliar uma disserta\u00e7\u00e3o de mestrado ou uma tese de doutorado ou os leitores de uma revista especializada. Eu, ao contr\u00e1rio, tenho como alvo um p\u00fablico mais amplo, em geral um leitor mais leigo, n\u00e3o habituado a ler sobre Hist\u00f3ria do Brasil. Pode ser tamb\u00e9m um estudante, umas crian\u00e7a ou um adolescente. Isso me obriga a ser mais simples e generoso na linguagem. Enquanto o estudioso acad\u00eamico usa uma linguagem mais t\u00e9cnica, eu procuro construir um texto jornal\u00edstico, no qual misturo an\u00e1lises mais profundas com detalhes pitorescos, curiosos e bem humorados dos personagens e dos acontecimentos. Isso ajuda a reter a aten\u00e7\u00e3o desse leitor. O m\u00e9todo de pesquisa tamb\u00e9m \u00e9 diferente. Eu uso a reportagem como ferramenta do meu trabalho, sem me preocupar com nuances te\u00f3ricas que, no ambiente acad\u00eamico, s\u00e3o muito importantes. Isso me d\u00e1 uma liberdade de observa\u00e7\u00e3o e de narrativa muito grande. Mas acho que jornalistas e historiadores t\u00eam muito a aprender uns com os outros. Historiadores podem ensinar aos jornalistas m\u00e9todo e profundidade nas pesquisas. Jornalistas podem ensinar aos historiadores a linguagem adequada para atingir um p\u00fablico mais amplo, fora do restrito c\u00edrculo acad\u00eamico.<\/p>\n<p>P.- Ol\u00e1, Laurentino, bom dia. Em agosto do ano passado, tive a oportunidade de te entrevistar sobre o lan\u00e7amento de seu mais recente livro, &#8220;1889&#8221;. De l\u00e1 pra c\u00e1, acompanhei, via redes sociais, todo o seu intenso trabalho de divulga\u00e7\u00e3o envolvendo este projeto. O senhor acredita que o mercado editorial brasileiro ainda carece de apoio e divulga\u00e7\u00e3o dos meios de comunica\u00e7\u00e3o do pa\u00eds?<\/p>\n<p>R.- Acredito que o mercado editorial brasileiro est\u00e1 se profissionalizando. Hoje temos grandes e boas editoras, que fazem um bom trabalho tanto na edi\u00e7\u00e3o quanto na divulga\u00e7\u00e3o dos livros. Obviamente, n\u00e3o \u00e9 nada que se compare ao trabalho feito em mercados mais maduros, como Estados Unidos, Inglaterra e Alemanha. Mas estamos melhores. Os meios de comunica\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m d\u00e3o espa\u00e7o bem razo\u00e1vel ao mercado editorial. E isso n\u00e3o se restringe aos meios tradicionais, como jornais e revistas. H\u00e1 uma infinidade de blogs culturais que merecem ser vistos e acompanhados.<\/p>\n<p>P.- Ol\u00e1, Laurentino. Muitas pessoas t\u00eam pedido pela volta do governo militar, argumentando que naquela \u00e9poca o Brasil era melhor economicamente, ou tinha menos viol\u00eancia. O brasileiro se esquece com facilidade da hist\u00f3ria, ou existe realmente uma cren\u00e7a de que naquela \u00e9poca as coisas eram melhores?<\/p>\n<p>R.- A democracia \u00e9 uma experi\u00eancia ainda relativamente recente na hist\u00f3ria brasileira. Estamos historicamente habituados a um modelo de constru\u00e7\u00e3o do Estado (e da sociedade) de cima para baixo, tanto no tempo da monarquia como de uma s\u00e9rie de &#8220;monarcas republicanos&#8221;, caso de Get\u00falio Vargas, do Estado Novo e dos generais-presidentes, do regime de 64. Democracia, como sabemos, \u00e9 por natureza um processo dif\u00edcil, que inclui tentativas, erros e acertos ao longo do caminho. S\u00e3o 200 milh\u00f5es de pessoas tentando pactuar esse caminho, e com interesses divergentes. Ent\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m natural que, diante das dificuldades, algumas pessoas olhem para o passado com saudade, querendo &#8220;atalhar caminho&#8221; pela via autorit\u00e1ria. Mas precisamos ser perseverantes no modelo que escolhemos e fugir da tenta\u00e7\u00e3o golpista. Porque essa \u00e9 a forma mais consistente e duradoura de construir o futuro.<\/p>\n<p>P.- Olhando a hist\u00f3ria do Brasil, a partir dos seus livros, vemos ra\u00edzes de uma atraso que perdura at\u00e9 hoje. Caso, por exemplo, da nossa baixo n\u00edvel de educa\u00e7\u00e3o. Como voc\u00ea enxerga o momento atual? N\u00e3o desanima ver que o Brasil anda a passos mais lentos que outras sociedades, por exemplo, em educa\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>R.- N\u00f3s precisamos calibrar as expectativas em rela\u00e7\u00e3o ao Brasil. O pa\u00eds vai melhorar por uma raz\u00e3o muito simples: n\u00f3s, brasileiros, sonhamos com um pa\u00eds melhor do que temos hoje. Como numa democracia somos n\u00f3s que constru\u00edmos o futuro, em princ\u00edpio esses sonhos e aspira\u00e7\u00f5es deveriam tamb\u00e9m se refletir nas nossas escolhas daqui para a frente, se formos perseverantes na democracia. Mas o pa\u00eds carrega passivos hist\u00f3ricos enormes e estruturais, em especial na educa\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o o nosso desafio \u00e9 qualificar a sociedade brasileira (pela educa\u00e7\u00e3o), formando cidad\u00e3os capazes de fazer boas escolhas na hora de votar. Trata-se, portanto, de uma transforma\u00e7\u00e3o de natureza cultural, de longo prazo. O que significa que o pa\u00eds pode, e vai, melhorar, mas n\u00e3o t\u00e3o rapidamente quanto n\u00f3s gostar\u00edamos.<\/p>\n<p>P.- Por que, n\u00f3s brasileiros, respeitamos t\u00e3o pouco a nossa hist\u00f3ria? Pixamos monumentos, desprezamos locais importantes por onde passaram nossos descobridores, ou her\u00f3is &#8230; nem os europeus e nem nossos vizinhos latinos s\u00e3o assim&#8230; <\/p>\n<p>R.- Os brasileiros, infelizmente, n\u00e3o se reconhecem na pr\u00f3pria hist\u00f3ria porque n\u00e3o foram chamados, at\u00e9 recentemente, a participar dela. Essa \u00e9 uma hist\u00f3ria feita sempre de cima para baixo, em um pa\u00eds que, at\u00e9 pouco mais de um s\u00e9culo, era dominado pelo analfabetismo, pela escravid\u00e3o, pela pobreza e pela concentra\u00e7\u00e3o de renda. Como se reconhecer numa hist\u00f3ria assim? Como esperar que a hist\u00f3ria seja valorizada em um pa\u00eds em que a imensa parcela da popula\u00e7\u00e3o at\u00e9 pouco tempo atr\u00e1s era analfabeta e exclu\u00edda, impossibilitada de estudar e entender a sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria? Tudo isso deve mudar daqui para a frente, em um pa\u00eds tamb\u00e9m transformado, com mais escolaridade, mais oportunidade e mais portas abertas \u00e0 cidadania. A\u00ed, sim, n\u00f3s poderemos olhar para tr\u00e1s e nos reconhecer na nossa pr\u00f3pria hist\u00f3ria. O que significar\u00e1 tamb\u00e9m valoriza-la e respeit\u00e1-la.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O escritor conversa com os internautas nesta segunda-feira \u00e0s 11h da manh\u00e3 (hora de Bras\u00edlia).<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-11942","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/intervius.com\/index.html\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11942","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/intervius.com\/index.html\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/intervius.com\/index.html\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/intervius.com\/index.html\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/intervius.com\/index.html\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=11942"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/intervius.com\/index.html\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/11942\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/intervius.com\/index.html\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=11942"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/intervius.com\/index.html\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=11942"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/intervius.com\/index.html\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=11942"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}